 disse. - Na noite passada acordei na
escuridão e o fogo tinha se apagado, e tive certeza de
que ia congelar antes que a manhã chegasse.
- Deve ser mais quente no lugar de onde você vem.
- Nunca tinha visto neve até o mês passado.
Vínhamos atravessando as terras acidentadas, eu e os
homens que meu pai enviou para me trazerem para o
norte, e esta coisa branca começou a cair como uma
leve chuva. A princípio pensei que era belíssima,
como penas caindo do céu, mas continuou, e
continuou, até que fiquei gelado até os ossos. Os
homens tinham crostas de neve barbas e mais sobre
os ombros, e ela continuava a cair. Temi que nunca
mais parasse.
Jon sorriu.
A Muralha erguia-se à frente deles, brilhando
fracamente à luz de uma meia-lua. No céu as ardiam,
límpidas e nítidas.
- Eles vão me obrigar a subir até lá em cima? - Sam
perguntou. Seu rosto azedou como leite velho quando
olhou para as grandes escadas de madeira. - Eu
morro se tiver de subir aquilo.
- Há um guindaste - Jon o apontou. - Podem subi-lo
numa gaiola.
Samwell Tarly fungou.
- Não gosto de lugares altos.
Aquilo foi demais. Jon franziu as sobrancelhas,
incrédulo.
- Mas você tem medo de tudo? - perguntou. - Não
consigo entender. Se é mesmo tão covarde, o que está
fazendo aqui? Por que um covarde haveria de querer
se juntar à Patrulha da Noite?
Samwell Tarly o olhou por um longo momento, e sua
face redonda pareceu cair para dentro de si própria.
Sentou-se no chão coberto de geada e desatou a
chorar, com enormes soluços estrangulados que lhe
estremeciam todo o corpo. Jon Snow só pôde parar e
ficar vendo. Tal como a queda de neve nas terras
acidentadas, aquelas lágrimas pareciam não ter fim.
Foi Fantasma que soube o que fazer. Silencioso como
uma sombra, o lobo gigante branco aproximou-se e
começou a lamber as lágrimas quentes no rosto de
Samwell Tarly. O rapaz gordo gritou, surpreso... E,
por algum milagre, seus soluços transformaram-se
em gargalhadas.
Jon Snow riu com ele. Depois, sentaram-se no chão
gelado, aconchegados aos mantos com Fantasma
entre ambos. Jon contou a história de como ele e
Robb tinham encontrado os lobinhos recém-nascidos
no meio da neve do fim do verão. Parecia agora
terem se passado mil anos. Pouco depois, deu por si
falando de Winterfell.
- Às vezes sonho com o castelo - ele disse. - Caminho
pelo seu longo salão vazio. Minha voz ecoa pelo
lugar, mas ninguém responde, e eu ando mais
depressa, abrindo portas, gritando nomes. Nem
sequer sei quem procuro. Na maior parte das noites é
meu pai, mas às vezes é Robb, ou minha irmã mais
nova, Arya, ou meu tio - pensar em Benjen Stark o
entristeceu, ele continuava desaparecido. O Velho
Urso enviara patrulhas à sua procura. Sor Jeremy
Rykker liderara duas buscas e Quorin Halfhand
partira da Torre Sombria, mas nada tinham
encontrado além de um punhado de sinais que o tio
deixara nas árvores para marcar o caminho. Nas
terras altas pedregosas do noroeste as marcas
paravam abruptamente, e todos os sinais de Ben
Stark esvaneciam-se.
- Alguma vez encontra alguém no seu sonho? - Sam
quis saber.
Jon balançou a cabeça.
- Nem uma só pessoa. O castelo está sempre vazio -
nunca falara a ninguém sobre aquele sonho, e não
compreendia por que motivo o contava agora a Sam,
mas de algum modo sentia-se bem falando dele. - Até
os corvos desapareceram da colônia, e as cavalariças
estão cheias de ossos. Isso sempre me assusta. Então
começo a correr, abrir portas com violência, subir os
degraus da torre três de cada vez, gritando por
alguém, por quem quer que seja. Então, dou por mim
em frente à porta para as criptas. Lá dentro tudo
está negro, e vejo os degraus que descem em espiral.
Sem saber como, sei que tenho de descer, mas não
quero fazê-lo. Tenho medo do que pode haver lá à
minha espera. Os velhos Reis do Inverno estão lá,
sentados em seus tronos com lobos de pedra a seus
pés e espadas de ferro sobre os joelhos, mas não é
deles que tenho medo. Grito que não sou um Stark,
que aquele não é o meu lugar, mas não serve de
nada, tenho de ir, seja como for, e, portanto, começo
a descer, tateando as paredes enquanto vou
avançando, sem uma tocha que me alumie o
caminho. Fica cada vez mais escuro, até que me dá
vontade de gritar - parou, de cenho franzido,
embaraçado. - E é então que sempre acordo - com a
pele fria e pegajosa, tremendo na escuridão de sua
cela. Fantasma salta para a cama, ao seu lado, e seu
calor é tão reconfortante como o nascer do dia. Ele
volta a adormecer com o rosto enterrado no pelo
branco e grosso do lobo gigante. - Você sonha com
Monte Chifre? - Jon perguntou.
- Não - a boca de Sam apertou-se e endureceu. -
Detestava aquilo - coçou Fantasma atrás da orelha,
pensando, e Jon deixou o silêncio respirar. Depois de
um longo tempo, Samwell Tarly começou a falar.
Jon Snow escutou em silêncio, e ficou sabendo como
foi que um covarde confesso veio parar na Muralha.
Os Tarly eram uma família antiga na honra, vassalos
de Mace Tyrell, Senhor de Jardim de Cima e Protetor
do Sul. Como filho mais velho de Lorde R